A TERRA

Vinte e cinco nascentes e uma barragem que socorre a cidade

Vinte e cinco nascentes, uma barragem que socorre Valinhos na estiagem e duas formações vegetais na mesma área. O que o laudo ambiental mediu nesta terra.

A represa dentro da propriedade do Haras La Estancia ao fim da tarde, com a mata e a cerca branca na outra margem.

Vinte e cinco nascentes correm dentro de uma única propriedade. O número não é frase de vendedor: é levantamento de um engenheiro ambiental, feito para o licenciamento junto à Cetesb, o mesmo estudo que sustenta a Barragem Santana dos Cuiabanos, com cerca de 130 milhões de litros de reserva, e a adutora que leva água até a Barragem Figueiras quando falta chuva em Valinhos. Este texto explica três coisas: de onde vem a água que abastece as estâncias hoje, o que a barragem representa para a cidade e por que essa mesma terra reúne Mata Atlântica e indício de cerrado, uma combinação que o próprio laudo chama de rara. O vale fica em Valinhos, cinco minutos de Campinas, e a protagonista aqui é a terra.

Vinte e cinco nascentes em uma propriedade só

Gravura de uma nascente correndo entre matacões de pedra dentro da mata do vale, com uma libélula âmbar sobre a água.

O levantamento que originou o número

O engenheiro ambiental Ronaldo Cesar Rossetti Lolli mapeou a Fazenda Santana dos Cuiabanos para o licenciamento ambiental do empreendimento: árvores isoladas, tipo e volume de vegetação natural, nascentes e o raio das Áreas de Preservação Permanente ao redor de cada uma. O resultado virou um mapa que se sobrepôs ao projeto urbanístico, ao sistema viário e às áreas comuns, para definir onde o empreendimento poderia tocar a terra e onde não podia. Foi desse levantamento, não de uma medição informal, que saiu o número: 25 nascentes dentro dos limites de uma única propriedade.

A licença de operação da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) levou em conta esse mapa antes de autorizar qualquer intervenção, e exige compensação ambiental proporcional a qualquer supressão de vegetação, por menor que seja. É esse tipo de exigência, e não uma escolha estética do empreendimento, que define onde o arruamento pode ou não passar perto de uma nascente.

Estado atual: água de nascente, tratada na própria terra

A água que abastece as estâncias hoje vem dessas nascentes. Antes de chegar às torneiras, passa por uma ETA (Estação de Tratamento de Água) própria, que trata a água captada nas fontes naturais para consumo humano. Depois de usada, o esgoto doméstico segue para uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto), que devolve o efluente à terra sem contaminar solo nem lençol freático. É um ciclo fechado dentro da própria propriedade, do nascente ao tratamento e de volta ao solo.

Antes de chegar à ETA, a água passa por dois reservatórios e por uma casa de captação vinculada ao DAEV, o departamento municipal de água e esgoto de Valinhos. Não existe rede externa fornecendo água às estâncias: o sistema todo, da captação na nascente até a torneira, opera dentro dos limites da propriedade.

A barragem que a cidade usa quando falta chuva

Uma reserva de 130 milhões de litros e uma adutora até a Barragem Figueiras

A barragem leva o nome da fazenda que ocupa essa terra há gerações, a Fazenda Santana dos Cuiabanos, dedicada primeiro ao café e depois à criação de cavalos puro-sangue inglês, antes de se tornar o empreendimento Haras La Estancia. A Barragem Santana dos Cuiabanos fica dentro da propriedade e é um manancial de água vital para a cidade de Valinhos, com reserva estimada em cerca de 130 milhões de litros. Dali sai uma adutora de 1.250 metros de comprimento e 250 milímetros de diâmetro, com capacidade para bombear até 50 litros por segundo até a Barragem Figueiras, outro manancial do município.

Quando ela entra em ação

A adutora é acionada nos períodos de estiagem, entre março e outubro, dentro de um acordo com o DAEV, o departamento de águas e esgoto de Valinhos. O arranjo vem de quando a terra ainda era fazenda de café e depois haras de cavalos de corrida: infraestrutura hídrica municipal que existia antes das estâncias serem loteadas, sem gesto do empreendimento ou doação envolvida, e que segue operando com a mesma função de sempre.

Mata Atlântica e cerrado no mesmo terreno

Gravura da encosta onde a Mata Atlântica encontra o cerrado, com um córrego correndo no fundo do vale.

O relato do engenheiro ambiental

“É uma transição de vegetação de Mata Atlântica e tem um forte indício de vegetação de cerrado”, descreveu Ronaldo Cesar Rossetti Lolli sobre a área. “Do ponto de vista ambiental, é difícil de achar essas evidências em uma mesma área.” Duas formações vegetais que raramente aparecem juntas no interior de São Paulo dividem a mesma bacia hidrográfica dentro da propriedade.

Essa transição acompanha os cursos d’água que nascem nas 25 nascentes mapeadas: é a mesma Área de Preservação Permanente que protege a vegetação nativa e alimenta a Barragem Santana dos Cuiabanos.

O que esse achado significa no laudo

É um dado técnico que qualifica a área como patrimônio ambiental documentado, do tipo que entra em laudo, é analisado por órgão fiscalizador e condiciona o que pode ou não ser feito na terra, não decoração de brochura. A licença de operação da Cetesb levou em conta essa transição de biomas antes de autorizar qualquer intervenção.

A mata que este vale preservou

O que ficou de pé aqui dentro

Valinhos fica no eixo entre Campinas e a capital paulista, cortada pela Rodovia Dom Pedro I, numa das regiões de maior pressão imobiliária do interior de São Paulo. É nesse contexto que uma propriedade de 2.340.742 m² manteve 25 nascentes, duas formações vegetais em transição e a cobertura nativa que as acompanha. O levantamento ambiental registrou isso como medição, sem mérito proclamado.

O contraste que dá tamanho ao número

Valinhos conserva hoje 11,8% de cobertura vegetal nativa, e é isso que dá dimensão ao que existe aqui dentro. O que a região perdeu ao longo de um século de lavoura, pasto e loteamento, este vale manteve, porque nunca foi dividido em pedaços de produção.

Água que entra e água que sai

Fechando o ciclo

Nascente, ETA, consumo, ETE, devolução ao solo sem contaminar o lençol freático: é o ciclo completo de água dentro da propriedade, do mesmo jeito que ficou registrado no projeto de saneamento aprovado para o empreendimento. Nada disso depende de rede externa de água ou esgoto para funcionar no dia a dia.

O que isso muda para quem mora ali

Para quem vive na estância o ano inteiro, o efeito é a ausência de sobressalto: não falta água na seca, porque a barragem que socorre a cidade também está ali, operando há décadas, e a água que sai de casa volta tratada para a terra, não para uma rede que ninguém vê. É infraestrutura que já existia antes do loteamento e segue funcionando, sem depender de promessa nem de obra futura.

Ninguém dentro do vale vê a ETA, a ETE ou o acordo com o DAEV no dia a dia. O que se vê é a água correndo sobre a pedra, a nascente que não seca e, em plena estiagem, o ladrão do lago vertendo do mesmo jeito que verte na chuva.

O que esses números medem

Vinte e cinco nascentes, cerca de 130 milhões de litros na Barragem Santana dos Cuiabanos, duas formações vegetais em transição na mesma área: nada disso é retórica de imobiliária. São medições de um laudo ambiental e uma infraestrutura que já existia antes do vale virar loteamento e que continua operando hoje, com a água tratada na própria propriedade. Texto não substitui caminhar até uma nascente ou ver a represa de perto.

Conhecer as estâncias