A REGIÃO

A terra que a família não vendeu

Em 1889, um promotor público pediu demissão e comprou terra em Valinhos. Como esse vale atravessou o café, a ferrovia e a Dom Pedro I sem nunca ser dividido.

Entrada da sede da Fazenda Santana do Cuiabano, a terra que hoje é o empreendimento Haras La Estancia.

Antes de ser um empreendimento, a terra do Haras La Estancia era uma fazenda de café. E antes disso, era uma escolha. Em 1889, no dia em que o Brasil virava república, um promotor público de Campinas pediu demissão do cargo porque era monarquista convicto. Com o dinheiro que tinha, comprou terra em Valinhos. Dali em diante, a mesma família guardou aquele vale por gerações, atravessando o fim do café, a chegada da ferrovia e, muito depois, a rodovia Dom Pedro I. Quase não chegou inteira até aqui: parte da fazenda foi doada a uma instituição de caridade, e o neto que passava as férias de infância ali precisou recomprá-la, pedaço por pedaço, para reunir a terra outra vez. Esta é a história de como uma fazenda de café em Valinhos atravessou o tempo sem ser dividida: um telefone cortado para proteger um ribeirão, uma Kombi que levava uma hora até a porteira, e a decisão, tomada mais de uma vez, de não vender.

Um promotor que pediu demissão em 1889

Lavoura de café da Fazenda Santana do Cuiabano, com dois homens entre os cafeeiros e as curvas de nível ao fundo.

Antônio Castro Prado era formado em Direito e ocupava o cargo de promotor do Império em Campinas. Quando veio a Proclamação da República, em 1889, pediu demissão: era monarquista convicto, e não ia servir a um regime em que não acreditava. Comprou a Fazenda Espírito Santo, na vizinha Valinhos, para produzir café, então o principal produto de exportação do Brasil.

O momento ajudava. Uma epidemia de febre amarela varria Campinas e empurrava famílias inteiras para Valinhos, que ainda nem era município. Antônio foi investindo os lucros do café em mais terra, até reunir mais de 500 alqueires. Guardava caixa suficiente para manter as fazendas por dois anos, tinha armazém próprio no Porto de Santos e um escritório na Espanha só para cuidar da exportação.

Em 1928, às vésperas do crash da Bolsa de Nova Iorque, fez as contas de novo e se surpreendeu: com o preço do café em alta, tinha recursos para sustentar as fazendas por 15 anos. Considerado insano pelos pares, vendeu todo o estoque. Quando o mundo mergulhou na Depressão que se seguiu a 1929 e o preço do café despencou, aquela venda virou fortuna. Em 1945, ano de sua morte, Antônio Castro Prado era o maior proprietário privado de terras do estado de São Paulo. Quem quiser a história completa da terra encontra o resumo institucional dessa trajetória.

O avô que cortou o telefone de uma fábrica para salvar um ribeirão

Trabalhadores carregando pedras numa carroça dentro do bosque da Fazenda Santana do Cuiabano, no início do século 20.

Dos cinco filhos de Antônio, só um conservou o talento comercial do pai. “A família torrou tudo”, resume Eduardo da Rocha Azevedo, bisneto de Antônio. O único que ficou com a herança foi Cid Castro Prado, seu avô materno.

Cid nasceu e cresceu na Fazenda Espírito Santo, em Valinhos. Formou-se em Direito no Largo de São Francisco, participou da Revolução Constitucionalista de 1932, foi deputado federal, falava cinco línguas e colecionava livros. Um “príncipe”, nas palavras do neto.

Como maior acionista da Companhia Telefônica de Valinhos, Cid mandou cortar as linhas de telefone da Rigesa, multinacional fabricante de papelão que despejava rejeitos num ribeirão que atravessava a Fazenda Santana do Cuiabano. Cortou o telefone da própria companhia para proteger a própria água. Foi décadas antes de o tema virar regra do jogo, e antes de a palavra sustentabilidade sequer existir no vernáculo em português.

O mesmo cuidado aparecia nas coisas pequenas. Cid levou dez anos construindo a casa da sede da fazenda, apegado aos detalhes mínimos.

A Kombi que levava uma hora da estação até a porteira

Eduardo nasceu em São Paulo, mas a infância dele pertence à Santana do Cuiabano. A fazenda dos avós maternos era o destino das férias de um grupo de cerca de vinte crianças: filhos, sobrinhos, netos, amigos, todos sob os cuidados da avó, Laura Bierrenbach Castro Prado.

Valinhos ainda era região rural no início dos anos 1950. Eduardo pegava o trem em São Paulo, descia na estação de Valinhos e fazia os 15 quilômetros até a fazenda numa Kombi que levava uma hora para vencer a estrada de terra. A recompensa esperava do outro lado da porteira: brincar, andar a cavalo, nadar nos rios e lagos de uma fazenda que seguia ativa na produção de café.

Recomprar a própria infância

Quando Cid morreu, em 1969, deixou a fazenda para a esposa, Laura, e as três filhas, entre elas a mãe de Eduardo. Anos depois, ao morrer, Laura já havia doado 75% da propriedade à FEAC, a Federação das Entidades Assistenciais de Campinas. As três filhas ficaram com apenas 25%.

No começo dos anos 1980, já adulto e apaixonado por cavalos desde a infância, Eduardo voltou às raízes: quis a Fazenda Santana do Cuiabano para criar puro-sangue inglês. O pai concordou de imediato e sugeriu negociar primeiro com as tias. Feitas as tratativas, Eduardo comprou a parte delas e também a fatia que estava com a FEAC, reunindo de novo os 30 alqueires da fazenda numa só mão. Construiu cocheiras, cercou pistas, batizou o haras de Santa Camila, em homenagem à filha. “É o lugar de que mais gosto na vida”, diz.

O menino da Kombi tinha se tornado o homem que garantia que aquele lugar continuasse existindo. É onde, décadas depois, nasceria o empreendimento Haras La Estancia.

O que se faz com uma terra que ninguém quis dividir

Em 2019, Eduardo pensou em um destino diferente para a fazenda e sua natureza, preservada com cuidado ao longo de todos aqueles anos. Procurou Edemir Pinto, que tinha deixado a B3 em 2017, e a ideia do empreendimento nasceu ali. É dali que vem a categoria de fazenda de luxo que essa terra se tornou.

Os dois carregam um lastro que fala baixo. Eduardo da Rocha Azevedo presidiu a Bolsa de Valores de São Paulo e criou a Bolsa de Mercadorias & Futuros. Edemir Pinto foi diretor-presidente da BM&F, conduziu a fusão com a BOVESPA e, depois, a operação que resultou na B3. É gente acostumada a construir instituições feitas para durar, e foi essa mesma paciência que trouxeram para a terra.

A resposta que deram a uma história de gerações sem divisão foi dividir o vale uma única vez, em trinta e sete estâncias, e parar por ali. Sem segunda fase: a gleba não comporta, e essa já é a decisão. Está aqui, em detalhe, como essa terra virou um condomínio haras. Como se diz de um bom relógio, você não é dono, é o guardião da próxima geração. Aqui é a mesma ideia, do tamanho de um vale, e ela também tem um nome: Haras La Estancia.

Uma terra não permanece inteira por acaso. Permanece porque, em cada geração, alguém decide não vender: o bisavô que preferiu o café e a fazenda ao cargo público, em 1889; o avô que cortou um telefone para proteger um ribeirão; o neto que atravessou de Kombi a estrada de terra até a porteira e, décadas depois, recomprou a própria infância, pedaço por pedaço. Quem vem conhecer a estância caminha sobre essa história antes mesmo de ouvir falar dela.